Inimigos de classe
Martha Medeiros
Quando vai chegando a data do aniversário de Porto Alegre (26 de março próximo), começam as enquetes: o que há de bom na nossa cidade, o que temos que as outras não têm? Respondo: Luciano Alabarse.
Afora seu mérito de organizador de um dos maiores festivais de teatro do país, o Em Cena, que traz anualmente grandes nomes internacionais para os palcos gaúchos, além de uma seleção caprichada do que de melhor se faz na dramaturgia nacional e local. Luciano é, em essência, um senhor diretor. E mais uma vez prova isso com seu recente espetáculo, Inimigos de Classe, que esteve em cartaz no Theatro São Pedro e que merece longa temporada.
A peça, escrita pelo dramaturgo inglês William Nigel, e que estreou em 1978, traz uma temática que, aparentemente, é rançosa (a delinquência nas escolas), mas que segue atual, basta lermos os jornais. No caso da peça, seis alunos da periferia de uma grande cidade acabaram de expulsar uma professora da sala e aguardam um substituto que tenha peito para enfrenta-los. Enquanto esse professor não chega, resolvem eles próprios dar aula uns para os outros. É nesses momentos performáticos, quando se transmutam em “mestres”, que revelam sua violência e fragilidade simultâneas, além de dar as pistas para que entendamos que eles não tiveram muitas opções, a não ser se refugiar na marginalidade.
O que diferencia essa peça de filmes clássicos como Ao Mestre com Carinho e menos clássicos como Mentes Perigosas é que não há a figura do herói, o professor que resgatará a garotada e os conduzirá a um final feliz. Os seis alunos não possuem essa boia salva-vidas. Eles precisam buscar em si mesmos os recursos para escapar da desesperança.
“Ninguém vai me conhecer, ninguém vai me conhecer”, grita, em surto, o personagem principal, Ferro, o mais destemido de todos, dando bandeira da dor e do medo que sente em sua solidão existencial. Ele e os demais colegas são frutos de lares desestruturados e problemáticos. Só atingem um simulacro de segurança quando exacerbam uma virilidade patética e ao mesmo tempo brutal. Claro, ninguém pode conhecer seus gostos, suas carências, seu desespero íntimo: seria a revelação de uma fraqueza e de uma humanidade que eles não permitem que venha à tona. Mas que cedo ou tarde virá. Luciano Alabarse é o maestro dessa orquestra. Em quase duas horas de encenação, rege uma coreografia fascinante no palco, que é valorizada pelo cenário, pelo figurino, pela luz e pela espetacular trilha sonora que resgata Tom Walts em seu auge. E os seis atores em cena não devem nada a medalhões – entregam o prometido: almas inquietas vivendo nas frestas.
Peças de entretenimento possuem seu espaço e são bem-vindas, mas dramaturgia é outra coisa. É sangue, suor, estupor, desconforto. Dessa matéria, Inimigos de Classe entende tudo.
Domingo, 18 de março de 2012.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.